Lá estava Adão
No dia da criação
Num desejo irreprimível
De nomear tudo visível
Com seu canto pessoal
(Que ninguém tem canto igual)
Água, sol, pedra, areia
Montanha, flor, pentelho, orelha
Ele fácil exprimia
Tudo aquilo que ele via
Mas então, astutamente,
Insinuou-lhe a serpente:
“Matemática!”
parque assombrado -
o chefão das almas
(tão penadas, coitadas)
o grão -
uma menininha
uns cinco aninhos?
vestidinho rosa
cabelo cacheadinho
o xamã me conta
(ao pé do ouvido,
num encontro fortuito):
provoque a garotinha
e verá-lhe a monstruosidade;
atire então tuas moedas
em sua bocarra aberta.
isto fiz,
e entre meus centavos,
atirei as três moedas
de consultar o i ching.
vencido foi o demônio (de novo)
mas senti falta das minhas moedas.
arranjo outras.
põe palavras a girar
palavras feito prismãs
fala
a mentira da palavra
o mito da caverna
a verdade antes da palavra -
mineral, matemática
durante a palavra:
we journey to the day
and tell each other how we sung
to keep the dark away.
e os novos sabores de verdade -
ovos da páscoa
ocultos entre o mato da fala
depois de tantas canções
alguma verdade no reino da palavra.
(Em itálico, trecho de um poema de Emily Dickinson)
o rii das véia
ri das véia
as véia lava
as véia canta
o rii ri
né di deboche não
né di mal não
ri di aligria
a rainha um dia chegou
apareceu diante de mim
e sentou-se a meu lado
e pôs sua mão em mim
a rainha pôs sua mão em mim
dentro do meu coração
e tocou nas minhas feridas
e curou minha solidão
a rainha me fez chorar
e chorando eu compreendi
compreendendo eu sorri
e sorrindo, eu segui
sou pé de polir pedras
sou olhos de furar muros
sou esponja no mundo
perdoa meu deleite
como hera insisto
como chuchu dou
como gato inútil
perdoa a menina me amar
lavro palavras, pedrinhas
lavro tábua de adivinhação
deixo rolar um dado vermelho
o sonho audaz, perdoa
o bicho da jandira
é lóris cantadeira
com sua cabacinha
cheínha de néctar
o samba balança minhas folhas
o diamante que sobre ele
o samba verte seu raio de luz
faz sete mil cores
cada uma muitas vidas
são tradições, são línguas
são formas de poesia
tambores e cavacos
e vozes de negros:
a luz por dentro do negro
Amigo barba espessa,
és uma espécie de barba azul
sugando brasílicas calíopes
presas no porão?
sugando meu menino
que gestado no útero da mantiqueira
cospe gemas pela manhã?
tentando engarrafar
meu demônio designer de araras?
ó consciência do certo e do errado
ó pai tristonho, cristão, soldado
ó cobrador de impostos:
pesas sobre o Brasil,
meu país de distâncias gostosas,
verdejantes biodiversos ecosistemas
refúgio do deus deleitoso -
leia minha plaquinha:
respeitem os bosques sagrados!
europeu de barba espessa
que atrás de gemas veio
mitologemas eldorados
tudo por uma esmeralda
pedra preciosa como poema de horácio
gema obra de deus clássico
meu brasil meu ventre oferecido
minhas matas xoxotas perfumadas
ah, barba espessa, eu te dou
tudo:
jurema, jandira, juçara
dioniso esteve aqui
verteu rios de vinhos
lindos peixes bêbados
lindos nomes tupi
piraquê piranha tucunaré poty
curimatã, surubim, ai, piruás de guarapari
(com limão, farinha, alface, cerveja gelada!)
cada canto um paraíso perdido
musas deliciosas atrás das moitas
mas o mundo é
onde a mente está
uns veem paraíso
outros, mato