Anotações

eu vivo fazendo listas dos livros que vou escrever

se eu não escrevê-los, publico as listas

Dizeres de Jesus

a bíblia de jeferson
koans de jesus

Escape from Canaã

Moisés Genocida (melhor, Deus Genocida)

Ensaio sobre a mentira

a jaca viajou da índia

—-

a língua a lambe
as palavras tupi

—-

há trinta anos
tenho este cobertor
que bisa mo eu -
cobertor, tapete voador:
deito, me cubro
e voo

—–

árvore multifrutífera

—–

cheiro de vivo
cheiro de morto

 

Em Santa Luzia

fim do inverno
a mata queima
a lua sangra

?

passarinho
abre o rabinho qual um leque
ou um leque é que é qual um rabinho
de passarinho?

aprendiz

tô fazendo o treinamento
de são chico
fico deitado no quintal
por horas
a ver se os passarinhos
se acostumam comigo
às vezes toco violão

tem uma família
de pica-pau amarelo
que já me notou
e estamos travando amizade:
creio que é o líder,
de cabeça vermelha
que outro dia ficou
(chamando minha atenção?
me ameaçando?
me paquerando?)
dando aqueles seus gritinhos
bravos, altos brados
saltitando da goiaberia
pro abacateiro pro limoeiro
pra acerola
chegando cada vez mais perto
(no embate entre a cuiriosidade
e o medo?)

têm eles dois filhotinhos
e outro di avi um eles
brincando de pega pega
com um esquilo
(sou um cara de sorte, não?)

a gente se entende,
mas eles ainda não pousam em mim.
mestre chico, eu chego lá!

Peri Dionisos Bromios

brômio geme, embora o vejam imóvel
tece co’a alma uma rede que cura

treme, brômio, entusiasmado
canta toda a noite embora o vejam calado

atravessa-me a teia que cura por dentro
(é dentro a esperança, é dentro a resposta)

verte vinho, brômio, meu caldeirão posicionado
o fogo tem alimento, a brisa acudindo aos trabalhos

mudando-me, amigo, se não mudo-te
ao menos dou provas de que é possível, sim

o salvador não virá fora, não terá voz ou corpo
é dentro que ele está, esperando-te, desde já.

Peri Dionisos

meu pai
monta na pantera
e sai

meu pai
deita araras
no ar

meu pai
delira os verdes
pira a flora

seu canto
retira os arrochos
do corpo

e o rio de luz
pode correr-nos
solto

e curamos
as dores nossas
e de outros

meu pai vem
com sua onça
pintada

seu toque
embriaga
e é bom

toque

toque na teia harmonias erógenas
tange em meu corpo excitantes acordes
o órgão que entende dá lugar ao que morde
gosto de escalas assim alucinógenas

o sopro perpassa orifícios perfeitos
na teia do espírito a rosa se forme
o órgão que entende reclina-se e dorme
o órgão que ama já sente os efeitos

da úmida música língua das línguas
sendo meu corpo xilofones marimbas
penetras e lambes meus nervos em flor

pernilongos gozosos eretos zunindo
frutas que lembram xoxotas se abrindo
o órgão que entende não entende o amor

poema

não vou me gabar
das renúncias

tenho mais orgulho
das aceitações

achava que deus
estava na renúncia -
do mundo, de mim

agora considero ateu
todo aquele que pensa
que deus precisa de ajuda

e não prego, não busco
nem pratico exercícios

sou, por crer tanto nele
apenas um poço de aceitação

casco de tartaruga

(inspirado pelo programa da rede minas sobre o arquipélago de galápagos)

casco de tartaruga
tudo muda
tudo muda

o sábio chinês
fu-hsi
viu no casco
da tartaruga
as letras do livro
das mudanças

tudo nasce
tudo enruga
casco de tartaruga
tudo muda

o sábio inglês
charles darwin
viu no casco
da galápagos
as letras da origem
das espécies

água mole
em rocha ígnea
tanto bate
até que
bactéria

da mais alta montanha, pó
de povos, farrapos
de farrapos, novas formas de vida

casco de tartaruga:
tudo muda

empresa

um homem, uma empresa
uma nave chamada enterprise

o primeiro homem
com a primeira empresa:
por ainda não ser nada,
quanta coisa podia ser!

veio um segundo homem
com nova empresa
e posicionou-se,
e o primeiro então não pode deixar
de se contraposicionar

e por isso o primeiro
anda assim como é,
tenso, cabisbaixo,
e se bebe um pouco de vinho
logo suspira
pensando que as coisas
não precisavam ter sido assim.

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